quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

IMPORTANTE - texto 19

Dia desses caiu o céu sobre São Paulo.
Por Tutatis, diriam os gauleses.
Putaqueopariu, disseram os paulistanos.
Não foi uma chuva muito forte.
Foi bem além disso.
Mais 39 dias iguais e teríamos a verdadeira compreensão da palavra dilúvio.
Quase tudo ficou absolutamente inundado, molhado, ilhado ou impedido de funcionar.
A cidade que nunca para, parou.
Como um submarino avariado, parte ficou submersa e parte se mostrando inútil na superfície.
Em horas assim é que percebemos o verdadeiro valor das coisas.
É quando as pessoas mostram seu poder de ajuda, solidariedade e fazem descobertas.
Sim, no meio daquele aguaceiro tive verdadeira epifânia.
(sempre quis usar essa palavra!)
Percebi que o verdadeiro valor das coisas não está na sua origem ou em seu valor financeiro.
Vi como algo pequeno pode fazer toda a diferença num dia assim.
Coisas nas quais antes você nem teria prestado atenção passam a ser gritantes.
Como um microscópico furo na sola do seu tênis.
Um furinho desgraçadamente minúsculo, mas que deixa que a água entre e faça do seu pé uma uva passa gigante.
Experimente passar um dia com um único pé molhado e o outro seco.
Era preferível estar boiando do que andando num charco individual.
Como podem ver, meu humor foi, literalmente, por água abaixo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

RASTEJAR - texto 18

Persigo seus passos seguindo minhas lembranças
Quero cuspir segredos guardados comigo
É um querer de volta aquilo que se foi

Sigo seus passos seguindo seus traços
Deixo rastros enquanto rastejo
Seguindo os rastros que você deixou ao passar

TENSO - texto 17

No tenso medo do dia
Peço na prece a guarda divina
Guardo na alma
Incerta dor que não cala

Terei paz ou angustia
No resto dos meus dias?

DU FALO - texto 16

Eu falo
Eu, falo
Quanto do meu eu
está no falo?
E na fala?
Falo sobre o falo
A fala e o falo
Falo de falo
E deixo o falo na fala
Este é meu fado?
Eu falo
Eu, falo.

MAIS QUE PERFEITOS - texto 15

Há dias acordo
pela manhã
querendo logo
que venha a noite

Alguém já cantou
peitos perfeitos

São feios!

Os seus são mais-que-perfeitos

Quero logo a noite

E seus seios

FUTURO - texto 14

Tédio, ânsia, medo
E o futuro para onde foi?

Venha de longe e leve
Esta viva incerteza
Que teimosa permanece
No meu leito de vida

Querer bem mais
Do que hoje é possível
Quimera
Leve daqui, futuro
Com seus ventos
Este momento impossível

Arranca das raízes
A terra já morta
Leva com a chuva a semente que de viva
Nada mais tem

E o futuro
Para onde foi?

BRANCA - texto 13

Uma noite, numa esquina, ela passou por mim
Como se eu passasse por qualquer um

Não guardei logo o seu nome
Mas mantive o aroma da certeza
Daqueles cabelos loiros para mim

Um dia, numa escola, ela esperou por mim
E ela nunca havia esperado por qualquer um

Junto com a lua, no meio do chão da rua
Marquei o nome daquela que era alva de corpo e aura
Branca era sua cor nua

Outra noite, em outro quarto, ela se mostrou para mim
E nessa hora eu pedi que as horas não tivessem fim

Dois pontos rosados cercados de branco e dourado
Esperavam por mim
Passeei por aqueles caminhos fascinado
Lembrando da esquina onde ela passou por mim

Tempos jogados, nem sei quantos agostos depois
Num embalo de rede nosso dedos se tocaram
Por um breve momento o que era guardado
Veio à tona e revivemos tudo
Como se nunca houvesse passado

And then, as a sun ray in a rainy day
She vanished in the air
She appeared and suddenly went away
All I kept was her image
Fading away